Do calvário à vida

Após 18 anos de sofrimento causado pela diabetes, rapaz recebe rim e pâncreas e recupera parte da visão

Quando a vida parecia terminar, ele insistiu em viver. E lutou por ela com uma força inacreditável. Poderia ser resumida assim a história desse rapaz que, aos 13 anos, teve a vida modificada de forma devastadora. Hoje, aos 32, ele plantou uma árvore na porta de casa, arrumou uma namorada, quer ter um filho e pretende escrever um livro. Será, com certeza, sua melhor história. A mais emocionante. Será escrita entre lágrimas e risos. E ele será o personagem principal. Haverá capítulos de perdas e danos, mas, no meio deles, uma extraordinária capacidade de renascer. Em tempo: essa história não pode ser resumida. Seria pequeno demais. Pouco demais. Essa história precisa ser sentida.



André, com a árvore que plantou na porta de casa, em Taguatinga, antes do duplo transplante: Símbolo de renascimento e de esperança

Estamos em 1988. Aos 13 anos, André Ricardo da Silva, que morava com a avó em Taguatinga Norte, na QND 54, foi passar as férias escolares na casa da mãe, na M Norte. Lá, ele andava de bicicleta por todos os lados. Rodava a cidade inteira. Como todo adolescente, tinha energia demais. Mas um dia, na volta de um desses passeios, ele sentiu um cansaço incomum. Prostrou-se no sofá. Ficou assim o resto da semana. A avó foi visitá-lo. Preparou-lhe chás caseiros. Dizia que podia ser algum problema de fígado ou estômago, indisposição passageira.

André só piorava. Tinha sede terrível e emagrecia a olhos vistos. Para saciar a secura da garganta, tomava litros de refrigerante. E só piorava. Um dia, desmaiou em casa. Levado às pressas para o Hospital Regional de Taguatinga (HRT), foi direto para a UTI. Horas depois, a confirmação do mal que o afligia. André tinha diabetes do tipo 1 — o mais grave. Naquele dia, sua glicose chegou a 827, altíssima. Teve risco de morte. Um pastor orou. Um médico achou o caso gravíssimo. Desconfiou de que ele não saísse mais da UTI.



Sueli, a mãe (E) e Ruth, a tia que mandou a carta para o cirurgião, em São Paulo, festejam a volta de André
O Tormento

Mas André resistiu. E ficou no HRT durante 15 dias. Começava o tormento com as aplicações de insulina. Era, a partir daquele momento, sua realidade. E a mudança radical na vida. Dos hábitos alimentares à forma de perceber as coisas. André voltou à escola. E já não andava mais de bicicleta como antes. Muito menos jogava futebol. Tinha medo de se machucar. Diabéticos não podem se cortar, em decorrência da dificuldade de cicactrização.

Até os 24 anos, mesmo com todas as dificuldades — inclusive falta de insulina na rede pública —, André tentou levar uma vida normal. Estudava e trabalhava como balconista. Muitas foram as vezes em que ele foi parar no hospital. As crises de hipoglicemia (glicose baixa) e a hiperglicemia (taxas elevadas de açúcar no sangue) eram freqüentes. Tinha que medir a glicemia no várias vezes ao dia. Além disso, sentia dores e cãimbras terríveis nas pernas e nos pés . Ele vivia numa corda bamba. Ora estava bem, ora desmaiava. Até a prima, Sarah, de 7 anos, aprendeu a lhe aplicar insulina.

A vida seguia e André já não conseguia mais controlar as crises de glicemia. Aos 28 anos, veio o primeiro efeito devastador do diabetes: a visão. O mais afetado foi, em princípio, o olho direito. Fez duas cirurgias, mas não conseguiu reverter os danos causados à retina. E a primeira sentença da perda contra a doença. André ficara cego do olho direito. Era irreversível, disse-lhe o médico.

Os dramas estavam apenas começando. Logo em seguida, apareceram os primeiros sintomas de que os rins não estavam funcionando bem. A pressão arterial desestabilizou-se de vez. “Chegava a 22 por 18. Era horrível”, lembra André. E a visão do olho esquerdo — sempre embaçada, sem foco — indicava que alguma coisa não ia bem. Era uma sucessão de perdas e danos.

Aos 29 anos, no final de 2005, um derrame no olho esquerdo (retinopatia diabética) o cegou de vez. A família de André procurou um especialista na rede privada. Rifou um videogame para pagar a consulta. E veio a primeira, de uma série de quatro cirurgias, a que o rapaz foi submetido. O médico olhou para o paciente e lhe disse, comovido: “Não sou Deus, não consigo fazer milagres, mas vou fazer o possível para que você não precise andar de bengalas”.

A mãe de André, Sueli Ingracia da Silva, 51 anos, rezou. Os amigos fizeram corrente de oração. Quando o médico retirou o tampão, perguntou se ele estava vendo alguma coisa. André respondeu, emocionado: “Doutor, o senhor é careca!”. Não era a visão total, mas ela começava a enxergar alguma coisa, mesmo que nunca fosse a ideal, mesmo que nunca venha a ser a mesma. “Você não sabe a felicidade do doutor Hilton Medeiros ao me ver enxergando”, lembra. Hoje, André enxerga muito pouco, algo em torno de 10% a 20%. Tem apenas o que os médicos definem como visão periférica. Vê as pessoas e, se quiser, não usa bengalas.

Duplo transplante
Mas as crises de hipo e hiperglicemia começaram a ficar mais intensas. Mais sérias e graves. Os rins davam sinais de que iam parar. E a hipertensão era assustadora. Não havia medicação que controlasse mais nada. Estava impossível viver daquela forma. Uma vida pela metade e com muito sofrimento. Internações no HRT eram semanais. Um dia, lhe contaram que em São Paulo um médico fazia transplante de pâncreas. André disse a si mesmo que chegaria a esse médico.

A tia do rapaz, Ruth Ingracia da Silva, de 38 anos, o ajudou a procurá-lo. Vasculhando na internet, achou o nome do médico. Escreveu, de próprio punho, uma carta a cinco especialistas. Contou o drama do sobrinho. A luta dele para viver. E mandou pelos Correios. Uma semana depois, o cirurgião, Marcelo Perosa de Miranda — um dos mais renomados especialistas em transplantes do país — ligou para a casa da tia de André. Pediu que ele viajasse o mais rapidamente para São Paulo.

No dia da ligação, André estava, mais uma vez, internado no HRT. A tia lhe telefonou e contou as boas-novas. De tão feliz, ele gritou que faria o transplante de pâncreas. “O enfermeiro pensou que eu estivesse delirando, tendo mais uma crise de hipoglicemia”, conta ele, às gargalhadas. A família e os amigos se mobilizaram para arrumar dinheiro da passagem dele e da mãe.
Renascimento

André embarcou. Foi recebido pelo médico, que lhe arrumou uma vaga na Casa de Apoio da Apat — Associação para Pesquisa ao Transplante. O irmão de André, Edivaldo Carlos Silva de Oliveira, 30 anos, diante do sofrimento dele, disse que lhe doaria um rim. Submeteu-se aos exames de compatibilidade. Foi aceito. Agora, só restava esperar o pâncreas, de um doador cadáver. No dia 2 de agosto de 2006, no Hospital Albert Einstein, nove meses depois da chegada a São Paulo, André realizou o duplo transplante que lhe trouxe de volta a vida. Não houve rejeição dos órgãos.

Uma vez por mês, com passagens pagas pela Secretaria de Saúde, André vai a São Paulo, para consultas de rotina. Daqui a algum tempo, as idas serão em intervalos maiores. Na quarta-feira à noite, ele e mãe chegaram de São Paulo. O resultado dos exames foi melhor do que esperavam. Definitivamente, André não é mais diabético, nem renal crônico, nem hipertenso. Glicemia? Não mais que 95 e, mesmo assim, depois do almoço — o limite para ser considerado normal vai até 110.

No fim da manhã de ontem, na casa simples onde mora, André fazia planos. Quer voltar a trabalhar, ser útil: “Já plantei uma árvore, agora só falta escrever um livro e ter um filho”. brinca. E continua, cheio de felicidade, como alguém que redescobre a vida: “Namorada eu já tenho. Conheci em São Paulo. Ela também é transplantada e mora em Goiânia”.

Sueli, a mãe, não se contém de alegria: “Minha vida inteira foi dentro de um hospital. Acho que a ficha ainda não caiu”. Ruth, a tia, se emociona: “O doutor Marcelo apareceu na nossa vida como um anjo”. Diante de tudo que viveu, André dá um recado: “O melhor da vida é ter esperança. É acreditar em Deus e que alguma coisa pode mudar ”. Quando plantava a árvore na porta de casa, antes de embarcar para os transplantes, alguém lhe disse que ela atraía lagartas. Ele respondeu: “Lagartas trazem borboletas. E borboleta é sinal de vida”. E é essa vida, em toda plenitude, com todo o seu encantamento, que André quer viver. Essa história, mais que contada, precisa ser sentida.

Marcelo Abreu
Repórter Especial 
Correio Braziliense

 

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